Israel caminhava lentamente pelas ruas da cidade. No ombro, além do peso dos oitenta anos passados, carregava um conjunto de roupas vermelhas e brancas.
Nos olhos, um brilho de esperança. No coração, a certeza de que por mais um ano carregaria consigo o emblemático título de Papai Noel, coisa que fazia há décadas.
O shopping estava repleto. As pessoas iam e vinham num frenesi alucinado de compras antecipadas para o natal.
A escada rolante transportava sonhos, que subiam e desciam, na mesma intensidade em que as ilusões de falsas necessidades se desfaziam ao termino de uma compra e se refaziam na próxima vitrine.
Sonhos e ilusões se fundiam nas cores coloridas das imensas galerias.
Israel caminhava: ator irreconhecido do teatro da vida.
A barba branca, bem cuidada, documentava os verões passados. Os passos lentos comprovavam a lentidão dos dias e a solidão das horas, que se perdiam na linha do tempo, apagando da mente das pessoas o verdadeiro significado da velhice.
Agora faltava pouco. Mais uma quadra de lojas e luzes, e veria despontar o tão almejado trono: o trono do rei Noel.
Israel parou. Uma pequena multidão aglomerava-se à sua frente. Com dificuldades embrenhava-se em meio aos empurrões e cotoveladas para ver a cena terrível: havia um Papai Noel em seu trono!
Suas pernas titubearam. O coração acelerou e a nítida imagem da verdade atirou ao chão seu mais sublime sonho, colorido de vermelho e branco.
Nenhuma palavra. O silêncio se fez rochedo em seu coração. As luzes que iluminavam sua aura se apagaram. A noite se fez em sua alma, e o caminho de volta para casa tornou-se um turvo rio.
Caminhou por horas solidão adentro até assentar-se na sarjeta, já molhado pelo fino orvalho. Ao fundo, um terreno baldio fazia-se de cenário lutuoso. Olhos no infinito da noite; morada das lágrimas que caíram na finitude da vida, repletas de alma em agonizante espera. O sonho findara, e os vestígios de décadas de trabalho se esvaíram no ar como uma névoa fina que se rende aos primeiros raios de sol.
Israel chorou decepção e amargura. Decepção por não ter sido ao menos notificado da substituição. Amargura, por sentir-se insignificante após décadas de trabalho e sonho. Sentia-se nada, tal qual as ilusões que se desfaziam no semblante das pessoas, segundos após possuírem seus sonhos. Um nada desprovido de alma!
Um pensamento de morte sondou Israel. Cabeça baixa, coração partido, deixava-se levar ao convite fúnebre. O pulsar lento no peito cansado desacelerava o ritmo. Os olhos fechados viam a noite brotar em si, enquanto o silêncio era quebrado por um árido gemido.
Israel abriu os olhos, e na taciturna noite apurou os ouvidos.
O gemido repetiu-se, agora mais longo e forte. Levantou-se e instintivamente fitou a negritude do terreno baldio que lhe serviria de cenário lutuoso. Um rosto molhado ainda refletia a incontida dor quando deparou-se com um casebre de zinco, com a porta entreaberta. Um respirar ofegante direcionou seu olhar para o fundo do barraco, onde uma vela dava seus últimos suspiros a iluminar o corpo desvalido da jovem senhora em trabalho de parto. Braços estendidos, sem palavras, imploravam pela vida: não a sua, mas daquela que estava por vir.
O velho abaixou-se e gentilmente acariciou-lhe a fronte. Como um sopro de vida a jovem balbuciou:
- Qual seu nome?
- Israel. Respondeu-lhe o velho.
- Israel, o Soldado de Deus. Sabia? Esse é o significado do seu nome. Para mim, você é o enviado de Deus.
Fez-se o silêncio dos silêncios. Aquelas palavras ressignificaram toda dor incontida naquele corpo surrado pelo tempo. Respirando profundamente o velho percebeu que a dor do abandono já não doía mais. No peito, só a coragem para enfrentar o momento que se apresentava à sua frente. Seus olhos encontraram-se com os olhos cansados da jovem que, entre uma contração e outra ainda reunia forças para vencer a batalha pela vida e sussurrar:
- Israel, Israel. Um homem só pode se tornar um soldado de Deus quando deixar de ser um escravo do mundo. Os grilhões que te prendiam às coisas do mundo foram quebrados. Agora você é um homem livre!
Israel chorou jovens lágrimas, como jovem se tornara sua alma. Suas mãos se tornaram firmes e aquela voz trêmula agora se fazia ecoar como fortaleza sem perder a sensibilidade.
- Já tens um nome para o bebê?
- Emanuel: Deus conosco. Sussurrou a jovem antes de entrar definitivamente em trabalho de parto.
Em silêncio o velho resvalou-se para os pés da cama improvisada com caixas de papelão e pacientemente completou o parto, levantando a criança aos céus. Antes de colocá-la sobre os seios da mãe o velho gritou: Emanuel...Emanuel...Deus seja conosco! Enquanto a madrugada deixava-se parir à luz da lua suspensa no ar, um choro novo irrompia a escuridão da noite dando a luz a um novo dia: era natal na alma de Noel!

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