IMANÊNCIA, TRANSCENDÊNCIA E O TORNAR-SE UNO - uma leitura fenomenológico-relacional na perspectiva da PGU
Resumo
O
presente artigo tem como objetivo analisar os conceitos de imanência e
transcendência a partir da perspectiva da Psicologia Gestáltica da Unidade (P.G.U.),
conforme proposta por Mossato, estabelecendo um diálogo com a fenomenologia
filosófica, especialmente nas contribuições de Martin Buber, Edmund Husserl e
Martin Heidegger. Parte-se da compreensão da P.G.U. como matriz teórica que
ancora a análise, propondo que o Ser humano se constitui na tensão entre o
fechamento egóico (imanência) e a abertura relacional (transcendência). A
imanência é compreendida como uma forma de existência centrada no “Eu-Isso”,
marcada pela objetificação do Outro e pela ilusão de autossuficiência. Em
contrapartida, a transcendência é entendida como movimento de abertura ao Outro
enquanto “existente-para-si”, possibilitando o surgimento do “Entre” — espaço
relacional onde emerge o “Nós-transcendente”. Metodologicamente, trata-se de
uma pesquisa de natureza teórico-conceitual, de base fenomenológica. Conclui-se
que a constituição do ser-pessoa ocorre no campo intersubjetivo, sendo a
transcendência condição fundamental para a humanização do Ser.
Palavras-chave: Imanência. Transcendência.
Fenomenologia. Alteridade. Relação. P.G.U.
1 Introdução
A
compreensão do Ser humano como entidade isolada tem sido progressivamente
tensionada por abordagens filosóficas e psicológicas que enfatizam a dimensão
relacional da existência. Nesse contexto, a Psicologia Gestáltica da Unidade
(P.G.U.), conforme desenvolvida por Mossato, propõe uma leitura integradora do
humano, na qual o Ser não se constitui em si mesmo de forma autônoma e
autossuficiente, mas emerge no entrelaçamento com o Outro.
Este
artigo parte da P.G.U. como eixo epistemológico central, estabelecendo um
diálogo com a fenomenologia, especialmente com as contribuições de Martin
Buber, Edmund Husserl e Martin Heidegger, a fim de aprofundar a compreensão dos
conceitos de imanência e transcendência.
A
problemática que orienta este estudo pode ser assim formulada: em que medida a
tensão entre imanência e transcendência interfere na constituição do
ser-pessoa? E como a dimensão relacional, compreendida como “Entre”, pode ser
entendida como locus de humanização?
2 Fundamentação Teórica
2.1 A P.G.U. como matriz interpretativa do
Ser-em-relação
A
Psicologia Gestáltica da Unidade (P.G.U.), segundo Mossato, compreende o Ser
humano como uma realidade em constante construção relacional. Diferentemente de
abordagens centradas no individualismo, propõe que a essência do Ser não é dada
a priori, mas construída na experiência do encontro.
Nesse
sentido, a relação não é um elemento secundário, mas constitutivo. O Outro não
é acessório, mas condição de possibilidade do próprio Ser. Essa perspectiva
desloca o eixo da compreensão do indivíduo isolado para o campo intersubjetivo
(MOSSATO, 2025).
2.2 Imanência: o fechamento do Ser na lógica do
Eu-Isso
Na
perspectiva da Psicologia Gestáltica da Unidade, a imanência refere-se ao
movimento de fechamento do Ser em si mesmo, caracterizado pela centralidade do
ego e pela percepção de autossuficiência.
Esse modo
de existência aproxima-se daquilo que Martin Buber descreve como relação
“Eu-Isso”, na qual o Outro é reduzido à condição de objeto (BUBER, 1974). Nessa
lógica, a relação perde sua dimensão dialógica e passa a ser instrumental.
Do ponto
de vista fenomenológico, pode-se relacionar essa condição à atitude natural
descrita por Edmund Husserl, na qual o sujeito permanece imerso em suas
próprias estruturas de significação, sem suspender (epoché) suas
pré-compreensões (HUSSERL, 2006).
A
imanência, portanto, limita o campo de experiência do Ser, restringindo sua
abertura ao mundo e ao Outro.
2.3 Transcendência: a abertura ao Outro e o
surgimento do “Entre”
Em
contraposição, a transcendência, na Psicologia Gestáltica da Unidade, é
compreendida como o movimento de ir além-de-si em direção ao Outro,
reconhecendo-o como “existente-para-si”.
Essa
perspectiva encontra ressonância na filosofia dialógica de Martin Buber,
especialmente na relação “Eu-Tu”, na qual o Outro é reconhecido em sua
totalidade e irredutibilidade (BUBER, 1974).
É nesse
encontro que emerge o “Entre” — conceito central tanto na filosofia buberiana
quanto na formulação de Mossato. O “Entre” não é um espaço físico, mas uma
realidade relacional, onde se constitui o “Nós-transcendente”.
Sob a
ótica de Martin Heidegger, esse movimento pode ser compreendido a partir do conceito
de ser-com (Mitsein), que indica que a existência humana é, originariamente,
compartilhada (HEIDEGGER, 2012).
Assim, a
transcendência não é uma fuga do mundo, mas um aprofundamento da experiência
relacional.
2.4 O “Nós-transcendente” e a constituição do
ser-pessoa
A
Psicologia Gestáltica da Unidade propõe que, no encontro autêntico, emerge um
terceiro elemento relacional: o “Nós-transcendente”. Esse “Nós” não anula as
individualidades, mas as integra em um campo de reciprocidade.
Esse
processo implica um duplo movimento: o Outro “nasce em mim” (reconhecimento
interno) e, posteriormente, “eu nasço no Outro” (reconhecimento relacional),
conforme descrito por Mossato, 2025.
Tal
dinâmica remete à constituição intersubjetiva do sujeito, amplamente discutida
na fenomenologia, especialmente na noção de alteridade.
Dessa
forma, o ser-pessoa não é reduzido ao indivíduo biológico ou psicológico, mas
compreendido como resultado de uma construção relacional.
3 Metodologia
O
presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa teórica de abordagem
qualitativa, fundamentada na análise conceitual de textos filosóficos e
psicológicos.
Adota-se
como método a fenomenologia, entendida como uma via de acesso à experiência
vivida, buscando compreender os fenômenos a partir de sua manifestação.
A
Psicologia Gestáltica da Unidade (MOSSATO, 2025) é utilizada como eixo
interpretativo principal, estabelecendo interlocuções com autores da tradição
fenomenológica.
4 Discussão
A análise
evidencia que a imanência e a transcendência não são estados mutuamente
excludentes, mas dimensões coexistentes da experiência humana.
Entretanto,
a permanência na imanência implica um empobrecimento relacional, enquanto a
abertura à transcendência possibilita a ampliação do Ser.
A partir
da Psicologia Gestáltica da Unidade, compreende-se que o desenvolvimento humano
ocorre no movimento de saída do fechamento egóico em direção à relação
autêntica.
Nesse
sentido, a transcendência não representa a negação do Eu, mas sua expansão no
campo do Nós.
5 Considerações Finais
Conclui-se
que a constituição do ser-pessoa ocorre no campo relacional, sendo a
transcendência condição fundamental para a humanização do Ser.
A
imanência, embora constitutiva da experiência inicial, não pode ser o ponto de
permanência do indivíduo, sob pena de limitar sua abertura existencial.
A
Psicologia Gestáltica da Unidade, conforme proposta por Mossato, ao oferecer
uma leitura integradora do Ser, contribui significativamente para o diálogo com
a fenomenologia, ampliando a compreensão da relação como fundamento da
existência humana.
Referências
BUBER,
Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 1974.
HEIDEGGER,
Martin. Ser e Tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
HUSSERL,
Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e uma filosofia fenomenológica.
Aparecida: Ideias & Letras, 2006.
MOSSATO,
Nivaldo. Psicologia Gestáltica da Unidade – do fazer-se um ao tornar-se uno.
Vargem Grande Paulista/SP: editora Cidade Nova, 2025.
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