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NIVALDO MOSSATO
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PGU - A SAÚDE MENTAL NO ENTRE DAS RELAÇÕES: Alteridade e Responsabilidade no Ato de Poncianar




Na perspectiva da PGU – Psicologia Gestáltica da Unidade , a saúde mental não pode ser compreendida como um fato isolado, encerrado dentro do indivíduo como se fosse um acontecimento exclusivamente interno, privado e desconectado do mundo. Ao contrário, ela emerge e se organiza no campo vivo das relações, no espaço dinâmico onde o Eu encontra o Outro e, nesse encontro, ambos são continuamente afetados, modificados e convocados à responsabilidade mútua.

É justamente nesse horizonte que o Self , compreendido como “o contato em ação” , assume papel central. O Self, na PGU, não é uma estrutura fixa, rígida ou substancial. Ele não é uma “coisa” localizada dentro da pessoa, tampouco uma identidade acabada. O Self é movimento, acontecimento, presença ativa no campo relacional. Ele se manifesta no ato de tocar e ser tocado pela experiência, no modo como uma pessoa entra em contato consigo, com o outro e com o mundo.

Dizer que o Self é o contato em ação afirma que a saúde mental se revela na qualidade desse contato. Quando a relação entre o Eu e o mundo se dá de forma viva, consciente e flexível, o Self se expressa como potência de integração. Porém, quando esse contato é interrompido, apoiado ou empobrecido, surgem formas de sofrimento psíquico que não pertencem apenas ao indivíduo, mas ao campo relacional que o constitui.

Nesse sentido, a PGU desloca radicalmente a compreensão tradicional de sofrimento mental. Não se trata apenas de perguntar “o que há de errado com esta pessoa?” , mas sobretudo “o que está acontecendo no meio desta relação?” . Essa mudança de foco é decisiva, porque deixa de patologizar a pessoa isoladamente para compreender a qualidade do vínculo no qual ela existe.

É nesse ponto que entram as Funções Materna e Paterna como organizadoras fundamentais da experiência psíquica.

A Função Materna é aquela que estimula os afetos, acolhe as emoções e favorece a emergência da experiência sensível. É por meio dela que uma pessoa aprende, desde muito cedo, a consideração de que sente, que deseja, que teme, que necessita. A dimensão materna não se limita à figura biológica da mãe, mas representa a função psíquica e relacional de acolhimento, sustentação e legitimação do sentir.

Quando essa função está suficientemente presente, o sujeito aprende que seus afetos têm lugar no mundo. Aprenda que pode existir emocionalmente sem precisar negar a própria sensibilidade. A saúde mental, nesse sentido, começa na autorização do sentir.

Por outro lado, a Função Paterna exerce a regulação das fronteiras entre o Eu e o Outro/mundo. Ela delimita contornos, oferece direção, diferencia interior e exterior, desejo e limite, fusão e separação. É a função que organiza a experiência da alteridade como realidade distinta do Eu. Sem essa função reguladora, o sujeito pode perder a capacidade de distinguir o que lhe pertence daquilo que pertence ao outro. O sofrimento, então, emerge tanto pela invasão quanto pelo isolamento.

A PGU, ao articular essas duas funções, mostra que a saúde mental depende da integração entre afeto e limite, vínculo e diferenciação, proximidade e distância. É nesse campo dialético que emerge o conceito fundamental de Poncianar, Transcendendo o encontro dialético em relação dialógica.

Poncianar, conforme sua formulação conceitual na PGU, é a capacidade de mover-se entre as polaridades do fenômeno, sem fixar-se rigidamente em um dos extremos. Trata-se da habilidade existencial de transitar entre presença e ausência, acolhimento e limite, emoção e reflexão, identidade e alteridade. Poncianar é, portanto, um movimento de flexibilidade psíquica e relacional.

Uma pessoa mentalmente saudável não é aquela que permanece sempre igual, mas aquela que consegue transitar. Ela consegue aproximar-se sem perder-se e afastar-se sem romper-se. Ela pode sustentar contradições, suportar ambiguidades e reconhecer que a experiência humana raramente se apresenta em formas absolutas.

O sofrimento psíquico frequentemente se instala quando essa mobilidade se perde. Quando o sujeito não consegue mais transitar, ele se fixa. Fixa-se em defesas, em certezas rígidas, em posições polarizadas. Passa a ver o mundo em termos absolutos: certo ou errado, amigo ou inimigo, amor ou abandono, valor ou desvalor. A rigidez, nessa perspectiva, é uma forma de adoecimento do movimento.

Mas a PGU avança ainda mais ao afirmar que esse movimento de Poncianar só alcança sua forma mais elevada quando atravessado pela Alteridade, aqui compreendida como a capacidade de reconhecer e aceitar o diferente. Não se trata apenas de perceber que o outro existe, mas de reconhecer que ele existe como Outro, isto é, como alguém que não é extensão do meu desejo, do meu medo ou das minhas projeções.

Aqui reside um ponto profundamente confrontativo da PGU frente a certas formas contemporâneas de relação. Muitas vezes, aquilo que chamamos de vínculo é apenas apropriação do outro. O outro é tolerado enquanto confirma nossas expectativas, reafirma nossa identidade ou satisfaz nossas carências. Quando diverge, frustra ou se diferencia, passa a ser rejeitado. Nessa lógica, o outro não é reconhecido como pessoa, mas como função do Eu.

A Alteridade rompe com essa lógica narcísica. Ela exige que o outro não me pertença, não exista para mim completar e não precisa coincidir comigo para ser legítimo.

É precisamente nesse reconhecimento que o Poncianar se eleva ao ato de Responsabilidade ; não como sentido de culpa ou obrigações moralizantes, mas como capacidade de responder ao que emerge no campo relacional. É responder por si e pelo modo como se participa da constituição do entre.

A saúde mental do Eu não pode ser dissociada da forma como ele se posiciona diante do Tu-eleito — esse Outro significativo que emerge anteriormente como Pessoa . O Tu não é objeto de contato; ele é sujeito da relação. Essa distinção é decisiva.

Quando o outro é reconhecido como pessoa, o vínculo deixa de ser uso e passa a ser encontro. A responsabilidade então não é unilateral, mas compartilhada. O Eu torna-se responsável pela qualidade do contato que oferece. O Tu torna-se significativo não por corresponder ao desejo do Eu, mas por existir como presença real no entre.

A saúde mental, nesse horizonte, deixa de ser um estado individual e passa a ser uma ética da relação. Adoecer mentalmente, muitas vezes, significa perder a capacidade de reconhecer o outro como Outro, ou perder a si mesmo na impossibilidade de sustentar essa diferença. Por isso, a Alteridade não é apenas um valor moral; ela é uma operadora clínica de saúde mental. Sem alteridade, não há encontro verdadeiro. Sem encontro, o Self empobrece. Sem Self em ação, o contato se rompe. E, romântico o contato, a experiência humana tende ao sofrimento.

A PGU nos convida, portanto, a compreender que a saúde mental nasce e se mantém na qualidade do entre. É no espaço relacional, onde afetos são coletados, limites são reconhecidos, polaridades são transitadas e diferenças são respeitadas, que o humano encontra possibilidade de integração.

Em última instância, cuidar da saúde mental é cuidar do modo como existimos diante do outro, onde o Poncianar – a capacidade criativa de mover-se entre as fronteiras do Eu e do Outro – torna-se um ato de responsabilidade pela alteridade emergida no Entre. É sério que o Eu só se torna plenamente humano quando assumo a responsabilidade pela existência do Tu no campo compartilhado da relação.

A Alteridade, então, deixa de ser mais acessível da diferença e torna-se fundamento do cuidado, do encontro e da própria possibilidade de saúde psíquica.

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